title="" />
Revista do Aço

À espera do fim da ‘TEMPESTADE’

Aço 2015/12/19 Capa Nenhum Comentário
À espera do fim da ‘TEMPESTADE’

Cenário para o setor metalmecânico continuará difícil em 2016, embora os players aguardem uma reviravolta em médio/longo prazo

Há uma certeza que norteia os principais players da indústria metalurgia nacional: o ano de 2015 é para ser esquecido. A atual crise econômica promoveu um processo de deterioração nas engrenagens dessa indústria. Juros elevados, a pesada carga tributária e a especulação foram alguns dos elementos que jogaram a competitividade no segmento literalmente na lama. Há dados recentes que comprovam o esvanecimento do setor na composição do Produto Interno Bruto – PIB. Até 2010, por exemplo, a indústria participava com 33% na participação do PIB. Hoje, esse índice mal chega a 12%. O empresário brasileiro luta para sobreviver.

À espera do fim da ‘TEMPESTADE’Importante área da metalurgia, a indústria metalmecânica (ou metalomecânica) é também vítima da retração na economia. É fato que empresas do porte da Gerdau e da Usiminas irão reestruturar suas operações em 2016. Entre as medidas anunciadas, o corte dos investimentos, a paralisação de unidades e a oferta pública das ações como forma de atenuar a baixa receita são algumas das mais expressivas. De um modo geral, as siderúrgicas estão endividadas. Resultado: uma nova paralisação surge no horizonte – após o corte, surge o ‘desinvestimento’.

O cenário do setor apresenta um contraste nos números. Em setembro, segundo as últimas estatísticas do Instituto Aço Brasil (IABr), as vendas de produtos siderúrgicos ao mercado brasileiro mostraram queda de 20,7% em relação a igual período de 2014, atingindo 1,5 milhão de toneladas. As vendas acumuladas em 2015, de 14,2 milhões de toneladas, tiveram redução de 14,3% com relação ao mesmo mês de 2014.

Por outro lado, as exportações de produtos siderúrgicos em setembro atingiram 1,6 milhão de toneladas, o que totaliza US$ 680 milhões. Com esse resultado, de acordo com o IABr, as exportações até aquele mês somaram 10 milhões de toneladas – US$ 5,2 bilhões, crescimento de 48,6% em volume e de 6,1% em valor, quando comparados a setembro de 2014. “Este resultado é devido, principalmente, ao aumento de operações ‘inter companies’, a partir do segundo semestre de 2014, para fornecimento de semiacabados a plantas na Europa e nos EUA e, também, devido a ações emergenciais do setor para evitar redução ainda maior do grau de utilização da capacidade instalada”, afirmou o instituto.

Na análise do presidente do IABr, Marco Polo de Mello Lopes, a redução do consumo doméstico não será compensada pelas exportações, pois há um excedente global de 700 milhões de toneladas. Diante desse cenário, é possível a indústria metalomecânica pensar em apostas para 2016? Tecnicamente, as empresas já deveriam estar definindo o planejamento para o próximo ano. Contudo, a possibilidade dos desinvestimentos está na agenda a partir de janeiro, que, digamos, refletirá o quadro de dificuldades atuais.

Queda dos preços

À espera do fim da ‘TEMPESTADE’Ainda que os tempos sejam sombrios, algumas entidades que compõem o setor esperam uma reviravolta do quadro mesmo em médio/longo prazo. O setor metalmecânico capixaba, por exemplo, moderniza-se e investe em capacitação de mão de obra, além de desenvolver tecnologia e processos de fabricação e montagem. Segundo o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico do Estado do Espírito Santo (Sindifer), o setor se sobressai destacar nas esferas de mineração, siderurgia e papel.

Mas, na visão do presidente do Sindifer, Manoel Pimenta, a indústria não se preparou para uma queda vertiginosa dos preços dos comodities e da falta de investimentos no País. “O fato das empresas terem se organizado na parte administrativa e financeira ainda proporciona um fôlego”, lembrou Pimenta. O dirigente aguarda uma retomada da atividade econômica, da situação política do paí entadas por produtos com maior valor agregado. É uma época de grandes desafios e que fortalecerá ainda mais nosso setor”, ressaltou Pimenta.

Em tempos de crise, importação cria diferenciais

“A retração do mercado já vem acontecendo de forma mais acentuada desde 2014. Esse ano foi mais difícil ainda e não há motivos que nos façam pensar que em 2016 haverá uma retomada da atividade industrial de maneira sustentada”, ponderou o assessor de inovação industrial da Associação Brasileira dos Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei), Ennio Crispino. Contudo, ele acredita que, só no final do próximo ano, terá início o processo de retomada do crescimento do país.

Em matéria de importação, segundo Crispino, os players do setor estão aprendendo a conviver com situações deste tipo. “Faz parte do pensamento de nossos associados sempre destacar as vantagens competitivas que o investimento de bens de capital importados possa significar para o empresário brasileiro”, declarou. A Abimei reconhece a necessidade de se continuar a reduzir custos, mas vê com otimismo o fato de que existe interesse em melhorar a produtividade, sobretudo para quem pretende permanecer competitivo mesmo em tempos de crise.

Para Crispino, os importadores têm a convicção de que podem oferecer as máquinas e equipamentos que ajudem o empresário brasileiro a criar diferenciais. “Portanto, aqueles que estão investindo ou precisam investir para melhorar a competitividade continuam interessados em investir também em máquinas importadas, a despeito do câmbio”, reforçou. O representante da Abimei acredita que a injeção de recursos em maquinário importado traz retorno em um determinado espaço de tempo. Dessa forma, o empresário brasileiro terá solução de continuidade em seus negócios.

Até 2018, estudo sugere investimentos em tecnologia

Há cerca de um ano, o BNDES lançou nova edição do estudo “Perspectivas de Investimento 2015/2018 e Panoramas Setoriais”, por meio do qual foram avaliadas as possibilidades de investimento para a economia brasileira nas áreas industrial e de infraestrutura, totalizando 20 segmentos. Em sua nona edição, o estudo já previa um fato que foi constatado ao longo de 2015, no setor siderúrgico: a queda dos investimentos como consequência do excesso da capacidade mundial do aço bruto. Este fato decorrente do extraordinário aumento da produção chinesa nos últimos anos.

O levantamento do BNDES pode ser um sinalizador de tendências para projetos do setor metalomecânico. No período de 2015/2018, de acordo com o mapeamento, os investimentos podem ser mais intensivos em tecnologia. A exploração de petróleo em águas profundas, diversificação da matriz energética, soluções inovadoras para o transporte urbano, entre outras, são alguns exemplos de quais direções viriam os aportes de recursos.

No campo eminentemente siderúrgico, as importações devem prevalecer. “No Brasil, no período de 2015 a 2018, são esperadas inversões da ordem de R$ 12 bilhões na siderurgia. No país, nos investimentos destinados ao aporte de nova capacidade, a rubrica equipamentos representa entre 40% e 50% do total dos usos, sendo a sua maioria composta de equipamentos importados, vindos principalmente da Itália, da Alemanha, da China e do Japão”, revela o estudo.

Por outro lado, o levantamento alerta para o aumento da depreciação cambial do real em relação ao dólar – o que se observou nitidamente também em 2015. Esse panorama pode trazer duas consequências favoráveis à indústria nacional, segundo o mapeamento do BNDES. Estes seriam a redução das importações de aço, tanto na forma de produtos siderúrgicos quanto em conteúdo (importação indireta), e a melhora na competitividade relativa, no mercado internacional, dos produtos siderúrgicos brasileiros.

Estudos à parte, especialistas admitem um cenário de incertezas e instabilidades que acabam represando investimentos na capacidade produtiva da indústria como um todo e o segmento metalomecânico em particular. Pouco se fala em projetos específicos e nem, tampouco, as áreas que poderiam ser alvos preferenciais deste segmento. Talvez a estratégia ideal seria cautela aliada à observação atenta da economia. Enquanto isso, a indústria amarga o pior momento de sua história, segundo os próprios empresários. Afinal, haverá saídas, ao menos honrosas, no fim do horizonte?

Compartilhe

Sobre o Autor

Deixe um comentário