Bons Resultados em Panorama Incerto

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Para o presidente executivo do Inda, Carlos Jorge Loureiro, o bom desempenho da rede de distribuição de aço se deve mais às compras antecipadas do que a uma recuperação consistente do mercado

Por Ricardo Torrico
Foto gentilmente cedida pela CSN – Compania Siderurgica Nacional

O desempenho da rede de empresas distribuidoras de aço associadas ao Instituto Nacional de Distribuidores de Aço (Inda) surpreendeu no primeiro trimestre deste ano, superando as expectativas da entidade. Vale lembrar que as expectativas de uma entidade como o Inda são, por definição, positivas, seja no sentido de melhorar uma situação já favorável, seja no sentido de reverter uma situação desfavorável. Expectativas superadas são, portanto, um bom sinal.

A estimativa feita presidente executivo do Inda, Carlos Jorge Loureiro, ainda no início de abril, já era bastante otimista. “No primeiro bimestre deste ano, as vendas de nossas associadas cresceram em torno de 5% sobre o primeiro bimestre de 2018. Esse crescimento resultou um pouco acima do que imaginávamos, porque as vendas no primeiro bimestre do ano passado foram muito consistentes. O que nós estamos imaginando é que este ano as vendas da rede vão crescer entre 7% e 8%”, afirmou nessa oportunidade . “Mas essa estimativa está condicionada, em primeiro lugar, ao crescimento da indústria − porque a distribuição não consome nada, só repassa ao mercado o que compra das usinas − e está baseada no provável crescimento dos grandes consumidores de aço, como a indústria de máquinas e equipamentos e a indústria automotiva, e numa razoável recuperação da construção civil. Lógico que esses números vão depender da aprovação da reforma da Previdência ainda neste primeiro semestre ou, no máximo, até julho, o que permitiria a possibilidade de um crescimento mais forte de toda a economia no segundo semestre. Mas, supondo que a reforma da Previdência não se concretize e ande tudo para trás, nesse caso, esse crescimento estimado não vai acontecer”, ressalva Loureiro.

Já na entrevista coletiva realizada no final de abril, o presidente executivo do Inda declarou ter sido surpreendido pela evolução de 10,1% nas vendas da rede de distribuição, consideravelmente superior à já otimista estimativa entre 7% e 8% do início do mês. Loureiro, no entanto, atribui esse resultado a um fenômeno de compras antecipadas, como forma de evitar o aumento de preços já anunciado pelas usinas para ocorrer ainda a partir de abril e que, como em todo processo comercial, acaba sendo repassado ao consumidor final. Não seria, portanto − ainda segundo Loureiro −, o reflexo de uma retomada consistente da economia que, como ele já tinha afirmado, depende ainda de uma séria de medidas que precisam ser negociadas e aprovadas em Brasília.

Compras

As compras contabilizadas pela rede de distribuição em março atingiram 273,4 mil toneladas, evoluindo 14,2% sobre o volume de 239,5 mil toneladas comprado em fevereiro, mas foram 3,6% inferiores às 283,5 mil toneladas compradas em março de 2018. No acumulado de janeiro a março deste ano, as compras da rede atingiram 802,5 mil toneladas, o que significou um aumento de 1,2% sobre as 793,3 mil toneladas compradas no mesmo período de 2018. Cabe destacar o crescimento de 16,7% nas compras trimestrais de chapas grossas e placas e de 11,2% nas de produtos zincados, enquanto as compras de laminados a quente tiveram uma redução de 3,5%, assim como as de laminados a frio e fitas metálicas, que também caíram 4,8%.

Vendas

Em março, as vendas da rede de distribuição registraram um volume total de 312,9 mil toneladas, evoluindo 1,0% sobre as 309,8 mil toneladas vendidas em fevereiro. No entanto, em relação ao volume vendido em março de 2018, o crescimento foi mais significativo: 19,0%. No acumulado do primeiro trimestre deste ano, as vendas realizadas pelos distribuidores de aço totalizaram 888,1 mil toneladas, evoluindo 23,5% em relação às 719,3 mil toneladas vendidas no mesmo período de 2018. Todos os produtos registraram aumentos significativos nas vendas trimestrais, com exceção das chapas grossas e placas, que evoluíram somente 1,4%.

Carlos Jorge Loureiro (INDA - SINDISIDER)

Carlos Jorge Loureiro (INDA – SINDISIDER)

Sobre o surpreendente resultado das vendas das empresas associadas ao Inda, Jorge Carlos Loureiro aponta a existência de setores consumidores de aço que estão em melhor do que os outros. “O setor automotivo, por exemplo, está crescendo, assim como máquinas agrícolas e máquinas e equipamentos em geral, e até a construção civil parece estar se recuperando. Mas isso não que dizer que esses setores estão crescendo 10% ou que isso reflita uma melhora geral. O que ocorreu foi mais uma compra geral antecipada, para garantir o preço”, ressalta.

Importações

Em março, as importações totalizaram 123 mil toneladas, evoluindo 30,5% sobre as 94 mil toneladas importadas em fevereiro, mas caindo 0,5% em relação às 124 mil toneladas importadas em março de 2018. Sobre a relação entre as importações e o preço interno do aço, Loureiro explica que, se a importação tem um prêmio alto, dando uma grande vantagem ao importador, automaticamente as usinas baixam seus preços, porque elas não querem perder mercado. “O grande ‘vilão’, que normalmente impede as usinas de aumentar seus preços, é o produto importado. Nós nunca vamos ver as usinas brigando com um prêmio alto na importação. Hoje, porém, o prêmio está em torno de 2% ou 3%, sendo que a média histórica é ao redor de 10%, o que permitiria às usinas aumentar seus preços. Mas, como o excesso de oferta está muito alto, porque o crescimento da economia está baixo, isso não está permitindo que as usinas façam isso”, detalha o presidente executivo do Inda.

Estoques

Importante indicador da rede de distribuição, os estoques tiveram um desempenho positivo nos últimos meses, atingindo 853,8 mil toneladas no mês de março, permitindo um giro de 2,7 meses, ou seja, 10% inferior à média histórica de 3 meses, considerada ideal pelas empresas distribuidoras. ” Os estoque caíram bem. A rotatividade, que era de quase 5 meses em dezembro, caiu para 2,7 meses em março. Mas isso também se deve, claro, às vendas antecipadas por causa do aumento anunciado pelas usinas”, explica Loureiro.

Projeções

Ao divulgar os dados de março deste ano, o presidente executivo do Inda estimou que, em abril, a rede de suas associadas deve registrar uma queda em torno de 10%, tanto em nas vendas quanto nas compras. “De qualquer maneira, mesmo que as vendas caiam 10% em abril, elas ainda vão ficar 25% acima das de abril do ano passado. A perspectiva é que, este ano, o consumo aparente de aço planos cresça entre 6% e 7% − ou seja, acima da economia. E a participação do Inda dentro do consumo aparente também deve crescer um pouco este ano. Nossas associadas devem fechar o ano com um aumento em torno de 10% ou 12%. A participação do Inda no ao consumo aparente, que se situa em torno de 35%, este ano deve crescer entre 4% e 5%. Pelo menos, essa é a ‘fotografia’ de hoje”, prevê Loureiro

Explicando o funcionamento do mercado de aço, o presidente executivo do Inda ressalta que ele é muito dinâmico. “Quando a diferença de preço em relação ao das usinas cai muito, os pequenos consumidores buscam muito mais a distribuição do que as usinas, porque conseguem comprar a tonelagem exata e com entrega imediata. Então, em um mercado com excesso de oferta, a participação do Inda cresce − que é o que está acontecendo este ano. Já quanto ao repasse dos aumentos de preço das usinas aos clientes das distribuidoras, ocorre uma ‘queda de braço’ diária. As distribuidoras tentam vender seus estoques argumentando que estão com preços antigos, mas os clientes também tentam tirar vantagem da situação, dizendo sempre que têm ofertas mais convenientes”, completa Carlos Jorge Loureiro.

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