Energia Renovada

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Os pesados investimentos previstos na exploração das jazidas do pré-sal e onshore podem levar o Brasil da 10a para a 5a posição no ranking mundial dos produtores de petróleo e gás

Por Ricardo Torrico

Não há como negar que, em algum momento do futuro, as fontes de energia limpa e renovável vão prevalecer sobre as de energias fósseis. A maioria dos especialistas concorda, porém, que essa situação ideal ainda deve demorar algumas décadas para se tornar realidade. De acordo com as projeções da Agência Internacional de Energia (IEA), a demanda por petróleo no mundo continuará crescendo pelo menos até 2040. Dada essa perspectiva realista, a economia mundial seguirá atrelada ao tão conhecido petróleo e de seu principal subproduto, o gás natural. Assim, o país que quiser manter um mínimo de autonomia econômica deve continuar investindo pesado nas quatro etapas − exploração, produção,refino e abastecimento − que compõem a cadeia produtiva do setor.

Quando o assunto petróleo e gás, o principal dilema de um país industrializado, como o Brasil, é ser um importador líquido. Ou seja, um país sempre de olho nas cíclicas mudanças no preço do barril de petróleo e, consequentemente, do BTU (British Thermal Unit ou Unidade Térmica Britânica), medida utilizada internacionalmente para determinar o preço do gás natural. Foi por esse motivo que os Estados Unidos investiram maciçamente no desenvolvimento do fracking, ou fraturamento hidráulico, uma técnica que permite recuperar o gás e óleo contidos nas rochas de xisto, que permitiu, transformar esse país de importador em exportador líquido de petróleo e seus derivados em menos de uma década.

Solução brasileira

Ao mesmo tempo em que o fracking era desenvolvido nos Estados Unidos, no Brasil a solução para acabar com a dependência das importações surgiu em 2006, com a descoberta, pela Petrobras, das jazidas do pré-sal − ou seja, localizadas abaixo das camadas de sal − no Atlântico Sul, além da área considerada como mar territorial brasileiro, mas dentro da região reconhecida como Zona Econômica Exclusiva (ZEE). Com o preço do barril acima dos 100 dólares naquele período, a exploração dessas jazidas se tornou viável, motivando a Petrobras a investir maciçamente em plataformas e FPSOs (Floating Production, Storage and Offloading), ou seja, navios adaptados para a produção, armazenamento e posterior escoamento de petróleo ou gás natural por navios petroleiros.

Os investimentos necessários para a prospecção e exploração dessas jazidas se refletiram em consistentes encomendas aos fornecedores nacionais e internacionais de equipamentos e demais insumos. A ampliação da demanda de produtos siderúrgicos às usinas nacionais foi uma consequência natural desse processo, que se estendeu até 2013. Caracterizada por uma quase euforia, essa fase sofreu uma reviravolta em 2014, provocada por uma perversa combinação entre uma drástica queda nos preços internacionais do petróleo − a mesma que provocou a brutal debacle da economia venezuelana − e as denúncias de corrupção na Petrobras.

Antes mesmo da descoberta das jazidas do pré-sal, a produção doméstica de petróleo já dava sinais de atingir a autossuficiência, o que acabou acontecendo a partir de 2005, com uma retração em 2013 e 2014. Da condição de importador, o Brasil passou a ser exportador, embora ainda precise importar petróleo ‘leve’ para misturar com o petróleo ‘pesado’ que produz, para ser processado nas 17 refinarias nacionais. Elas foram projetadas para processar  o petróleo leve importado quando nosso país ainda estava longe de ser autossuficiente . Vale observar que exportar petróleo pesado e importar petróleo de melhor qualidade é uma prática normal em todo o mundo. O Brasil, portanto, atingiu o patamar conhecido pelos especialistas como ‘autossuficiência volumétrica’.

Fim do monopólio

O monopólio da União na exploração, produção, refino e transporte do petróleo no Brasil, instituído em 1952 − dois anos após a criação da Petrobras −, acabou com a promulgação da Lei 9.478, de 6 de agosto de 1997, que abriu o mercado à concorrência internacional. Desde 1999, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) tem levado adiante essa nova proposta, realizando rodadas de licitações de blocos exploratórios e rodadas de partilha da produção do pré-sal. Além dessas licitações programadas, em setembro de 2010, a União e a Petrobras assinaram um acordo, conhecido como ‘cessão onerosa’, que concedeu à estatal o direito de extrair 5 bilhões de barris de óleo equivalente (BOE) da camada do pré-sal em sete campos do pré-sal da Bacia de Santos.

Ocorre, porém, que prospecções posteriores feitas pela estatal revelaram um volume que pode chegar a 15 bilhões de barris. Se essas previsões se concretizarem, o Brasil pode saltar da 10a para a 5a posição no ranking dos maiores países produtores de petróleo. Esse novo contexto levou o governo a realizar a Rodada de Licitações do Excedente da Cessão Onerosa, chamando pela imprensa de ‘megaleilão’ por ser o maior valor já realizado nesse mercado em todo o mundo.  A sessão pública de apresentação das ofertas aconteceu no dia 6 de novembro deste ano, mas o resultado ficou muito aquém dos R$ 106,5 bilhões que pretendia arrecadar em bônus de assinatura. Isso ocorreu porque, das quatro áreas oferecidas, somente duas foram arrematadas, por R$ 69,96 bilhões. Uma das áreas foi arrematada pela Petrobras e outra pela mesma estatal, consorciada com uma empresa chinesa. Especialistas do setor consideraram que os valores bilionários a serem cobrados como bônus no caso específico deste leilão podem ter inibido o interesse das demais empresas internacionais do setor. No entanto, tendo atingido 66% do valor pretendido, o resultado pode ter sido um pouco frustrante, mas esteve longe de ser um fracasso. Os resultados obtidos nas demais licitações permitem deduzir que existe, sim, um grande interesse daqueles empresas pela exploração das jazidas brasileiras.

Futuro promissor

Considerando os resultados obtidos nos diversos leilões e no megaleilão até o presente momento, o setor petrolífero brasileiro apresenta perspectivas bastante animadoras. De acordo com um artigo de Spencer Dale, economista-chefe da British Petroleum, publicado no Anuário da Indústria de Petróleo no Rio de Janeiro: Panorama 2019, em 2018, o Brasil foi o 10º maior produtor de petróleo, 2º em biocombustíveis e 7º em geração de energia renovável. As avaliações do setor indicam também que, até 2024, o Brasil será a 2ª maior fonte de crescimento de produção de petróleo fora da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

Quanto desse entusiasmo vai se transformar em pedidos mais consistentes para a toda a cadeia da industria nacional − das usinas siderúrgicas aos estaleiros− é ainda uma incógnita. Uma coisa, porém, é certa: existem bons motivos para uma expectativa otimista, já que ninguém aposta tão alto sem ter uma clara perspectiva de retorno. De acordo com o diretor-geral da ANP, Décio Oddone, de 50 a 60 novas plataformas deverão ser instaladas no litoral brasileiro nos próximos anos. Se essa estimativa se confirmar, certamente representará um consistente reaquecimento do setor de O&G, com reflexos positivos para os fornecedores nacionais de equipamentos e demais insumos, em que se destacam as usinas e os distribuidores de produtos siderúrgicos.

Investimentos

Por enquanto, alguns investimentos pesados têm sido feitos para viabilizar a produção, refino e distribuição do petróleo e gás do pré-sal, como o Projeto Integrado Rota 3, em construção na região do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em Itaboraí, destinado ao escoamento da produção de gás natural de campos do pré-sal da Bacia de Santos e composto por duas estruturas. A primeira é a Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN), com capacidade para processar até 21 milhões de m³ por dia, cujo custo de implantação, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia (MME), é estimado em R$ 2,3 bilhões. A segunda das estruturas do Rota 3 contempla a construção de um gasoduto com uma extensão total de 355 km, sendo 307 km de trecho marítimo − já construído − e 48 km de trecho terrestre − em construção.

Em agosto deste ano, o MME lançou o Reate 2020 – Programa de Revitalização da Atividade de Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural em Áreas Terrestres, cuja meta é duplicar a produção de petróleo e gás em dez anos, com o setor de gás crescendo a um ritmo maior que o do petróleo. Segundo o ministro Bento Albuquerque, até 2030, a produção praticamente dobrará, passando de 270 mil para 500 mil BOEs. Para tanto, o MME projeta que os investimentos em extração e produção onshore (terrestre) devem sair do atual patamar de R$ 1,6 bilhão para cerca de R$ 4 bilhões por ano, atingindo um total em torno de R$ 40 bilhões e gerando aproximadamente 700 mil empregos;

Já de acordo com a Associação Brasileira de Empresas de Serviços de Petróleo (Abespetro), nos próximos dez anos, serão investidos mais de R$ 2 trilhões em E&P nas áreas já contratadas, sendo que 20 novas plataformas do tipo FPSO devem entrar em operação nos próximos anos, mantendo a média de três por ano, o que significa 35% da demanda mundial desses equipamentos. Entre projeções mais ou menos otimistas, só resta a certeza de que o setor de petróleo e gás ainda tem muita energia pela frente − e que o Brasil certamente vai tirar muito proveito disso.

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