Queda nas exportações inibem recuperação

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O aumento na demanda interna não tem sido suficiente para melhorar o desempenho do setor, fortemente afetado pela queda das exportações

Por Ricardo Torrico

A indústria brasileira de máquinas e equipamentos encerrou o mês de janeiro de 2020 com um faturamento total de R$ 7,9 bilhões, o que significou uma queda de 3,6% em relação ao faturamento total de R$ 8,18 bilhões registrado em janeiro de 2019. De acordo com o Departamento de Competitividade, Economia e Estatística (DCEE) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), esse desempenho mais fraco resultou da redução nas vendas do setor no mercado externo. No mercado interno, após dois meses de desaceleração – -2,7% em novembro e -2,9% em dezembro –, em janeiro deste ano, as vendas do setor registraram um crescimento de 6,6% em relação ao mesmo mês de 2019.

Recuperação do consumo

O consumo aparente de máquinas e equipamentos (produção interna – exportações + importações) vem registrando melhoras. Em relação ao mês de janeiro de 2019, houve um forte crescimento, de 19,3%, evoluindo de R$ 10,93 bilhões para R

$ 13,03 bilhões. A explicação – segundo o DCEE da Abimaq – está no início da expansão das atividades em 2018 e, mais intensamente, no primeiro trimestre de 2019, depois de um intenso processo de recessão que inviabilizou durante vários anos a realização de investimentos em máquinas e equipamentos por muitos anos.

Queda nas exportações

No entanto, a evolução positiva do mercado interno não foi suficiente para anular a queda observada nas exportações, impactadas pela desaceleração da demanda de máquinas e equipamentos em mercados tradicionalmente importantes. A redução das exportações foi significativa tanto em relação ao mês anterior quanto ao mesmo mês de 2019: -26,3% e -26,6%, respectivamente. A desaceleração observada em 2019, provocada por uma conjunção de diversos fatores – crises geopolíticas, guerra comercial entre Estados Unidos e China, e recessão na Argentina –, este ano deverá ter um fator complicador adicional: o surto de epidemia do coronavírus.

Importações em alta

Evoluindo em sentido contrário ao do mercado externo, a recuperação da demanda interna se refletiu também em um forte crescimento nas importações de máquinas e equipamentos. Em comparação com o mês de dezembro de 2019, o aumento nas importações foi de 22,0% e, na comparação interanual, foi da ordem de 22,9%. Segundo o DCEE da Abimaq, esse crescimento, que teve início em maio de 2019, vem sendo puxado pelo aumento dos investimentos em infraestrutura e na agricultura, e no aumento das aquisições de componentes para reposição e produção de máquinas e equipamentos.

Indicadores adicionais

Apesar da recente recuperação do consumo aparente, as taxas de crescimento nas vendas de máquinas e equipamentos registradas nos últimos dois anos não foram suficientes para elevar o nível de utilização da capacidade instalada, que ainda se encontra em 72,5%, ou seja, um pouco abaixo do nível médio de 74% registrado pela indústria de transformação.

A carteira de pedidos da indústria de máquinas e equipamentos também continua reduzida, principalmente, em função principalmente da ausência de grandes projetos de investimentos. Apesar de ter ocorrido um aumento no nível de consultas, no mês de janeiro, houve uma queda de 5,4% na carteira de pedidos.

Após uma significativa recuperação do nível de emprego da indústria brasileira de máquinas e equipamentos, iniciada em 2018, a partir de setembro de 2019 houve uma sequência de quedas. Assim, após ter alcançado o pico de 309 mil funcionários em agosto de 209, o setor reduziu o quadro de pessoal para pouco mais de 302 mil em dezembro 2019. Apesar da queda das vendas, da redução da carteira de pedidos e do nível de utilização da capacidade instalada, em janeiro de 2020, o setor registrou um aumento de 0,9% no quadro, elevando o número de trabalhadores para 305,2 mil.

Perspectivas nebulosas

Os sinais de desaceleração da economia mundial já vinham sendo sentidos desde o último trimestre de 2019, e se intensificaram com o advento da pandemia de coronavírus, que começou na China, mas já se disseminou por países da Ásia e Europa e, com menos vigor, nos Estados Unidos e América Latina. Como essa pandemia vai evoluir nas próximas semanas e meses é uma questão que mereceria uma sofisticada ‘bola de cristal’, mas agora é um fator adicional para reduzir a demanda mundial de máquinas e equipamentos. O panorama está longe de ser sinistro, mas certamente é nebuloso. “A desaceleração mundial deve continuar e provavelmente vai afetar as exportações brasileiras, não só de máquinas, mas também de manufaturados. No ano passado, houve um decréscimo na exportação de manufaturados e também de bens com alta e alta-média tecnologias. Isso indica que o Brasil está perdendo participação no mercado mundial de bens manufaturados. E os bens primários, que tiveram um bom desempenho, não estão conseguindo compensar o resultado final da balança de pagamentos”, explica José Velloso.

No início deste ano, a Abimaq trabalhava com a perspectiva de que as exportações se mantivessem no mesmo nível do ano passado, mas agora, por conta do problema do coronavíru, têm uma tendência de queda. “Nossa expectativa atual para este ano é que as vendas totais do setor cresçam em torno de 5%. Já o mercado doméstico deve crescer um pouco mais – em torno de 10% –, porque uma boa parte dos investimentos já estão contratados”, explica a gerente de Competitividade, Economia e Estatística da Abimaq, Maria Cristina Zanella. “Sobre as exportações, que acreditávamos que teriam um crescimento estável, agora achamos que deve ser até negativo, mas neste momento ainda não temos condições de fornecer números mais precisos.”

Provável oportunidade

“Nós temos verificado que, em função do coronavírus, alguns setores, principalmente o segmento de produtos eletrônicos, já sofrem desabastecimento. No nosso setor, por enquanto não temos nenhuma informação que nos permita afirmar que há desabastecimento”, relata José Velloso. “Cabe observar, porém, que já há alguns casos esporádicos de empresas que normalmente importam componentes da China, mas que agora já estão tomando providência para prevenir um mal maior. Essas empresas estão estudando a substituição de componentes importados da China por similares fabricados no Brasil ou importados de outros países. Portanto, pode-se dizer que a crise provocada pelo coronavírus criou uma oportunidade para as empresas nacionais. Se uma empresa já fornecia a um determinado cliente e seu produto foi substituído por um produto chinês, agora ela tem a oportunidade de voltar a fornecer.”

Velloso aponta ainda outra oportunidade, desta vez no mercado externo. “Nosso setor não está começando a exportar agora – ele tem um grande mercado já conquistado lá fora. Portanto, além de existir uma oportunidade de substituir os produtos chineses aqui, também existe a oportunidade de substituí-los nos mercados aos quais já exportamos. E vale lembrar que nosso principal mercado externo são os Estados Unidos, o segundo é a América Latina e o terceiro e a União Europeia”, completa o presidente executivo da Abimaq.

Acesse: www.abimaq.com.br

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