SEM INVESTIMENTO, O BRASIL NÃO CRESCE

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A indústria de máquinas encerrou o semestre com um crescimento modesto em relação a 2018, mas sem perspectivas de um crescimento consistente nos próximos meses

Por Ricardo Torrico

Os resultados de junho e do primeiro semestre deste ano, colhidos e consolidados pela Divisão de Economia, Estatística e Competitividade (DEEC) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), indicam que continua persistindo um razoável grau de confiança da indústria nacional em geral em uma retomada do crescimento. Os valores do mês de junho estiveram abaixo do esperado, reduzindo a tendência de recuperação que vinha se delineando nos meses anteriores − tendência a ser confirmada ou, preferivelmente, revertida no mês de julho −, mas, mesmo assim, o primeiro semestre deste ano foi melhor que o do ano passado.

Sem uma tendência consistente, a indústria de máquinas e equipamentos reflete o atual contexto de incerteza de toda e economia nacional, em que o empresariado espera com ansiedade a aprovação definitiva da reforma da Previdência, com uma espécie de start up para a retomada do crescimento. No entanto, essa expectativa não é compartilhada por Mario Bernardini, diretor de Economia, Estatística e Competitividade da Abimaq. Segundo ele, mais do que as reformas, a retomada do crescimento é a prioridade número um do país. “Sem a retomada do investimento público e a recuperação do emprego, o Brasil não crescerá. As reformas são um meio importante, mas para fazer efeito a médio e longo prazo. O que tem que se fazer no curto prazo é recuperar os investimentos”, afirma Bernardini.

Impulso contido

A receita líquida total da indústria nacional de máquinas e equipamentos atingiu R$ 6,75 bilhões no mês de junho deste ano, o que significou uma queda de 6,1% em relação a maio e uma queda mais acentuada, de 12,1%, sobre junho de 2018. Esse resultado eliminou uma boa parte da taxa de crescimento acumulada no ano pelo setor, que tinha crescido 7,5% entre janeiro e maio sobre o mesmo período de 2018, mas que acabou o semestre com um crescimento de 3,6%. O desempenho do setor continua sendo influenciado pelo mercado doméstico, que cresceu 1,3% sobre maio e 10,2% no semestre, atingindo R$ 22,169 bilhões.

Exportações em queda

Ao contrário do mercado interno, em junho as exportações caíram pelo terceiro mês consecutivo, atingindo US$ 682 milhões, o que significou uma redução de 8,0% em relação a maio e uma drástica redução de 22,5% sobre o total de US$ 880 milhões exportados em junho do ano passado. A Abimaq atribui essa tendência à acentuada desaceleração do comércio internacional em razão das tensões entre EUA e China e à crise econômica da Argentina, um dos principais mercados externos das máquinas e equipamentos brasileiros.

O mês de junho, porém, confirmou uma novidade: pela primeira vez na série histórica de exportações de máquinas e equipamentos, os Estados Unidos apareceram como o principal destino das máquinas nacionais, recebendo um terço do total exportados no primeiro semestre. O encolhimento das vendas para a América Latina, que no passado superou a marca de 50% no total vendido fora do país, ocorreu devido a uma menor penetração do setor nos mercados paraguaio e argentino. Com um cenário econômico recessivo na Argentina, que registrou uma queda de 10,1% na produção manufatureira neste primeiro semestre de 2019, as aquisições de máquinas do Brasil encolheram quase 50%. Outros países que também reduziram suas compras de máquinas e equipamentos brasileiros foram a Holanda (-33%), China (-57%) e França (-28%).

Novos pedidos e emprego

No mês de junho, a indústria brasileira de máquinas e equipamentos aumentou em 0,5 ponto percentual o nível de utilização da capacidade instalada, atingindo 76%.  Este nível é também 0,3 ponto percentual acima do observado no mesmo mês de 2018. Apesar desta relativa melhora no nível de utilização da capacidade instalada, a carteira de pedidos da indústria de máquinas e equipamentos recuou um pouco, sinalizando que as atividades produtivas deverão manter um ritmo mais fraco nos próximos meses.

No que se refere ao nível de emprego, a partir de 2018, o setor fabricante de máquinas e equipamentos iniciou o processo de ampliação do seu quadro de pessoal, encerrando o ano com pouco mais de 300 mil empregos − um aumento de mais de 10 mil pessoas empregadas só em 2018. Em 2019, até o mês de maio, o setor registrou cinco meses consecutivos de aumento nas suas contratações, mas em junho houve uma pequena redução, de 0,4%, provavelmente como reflexo do desaquecimento das atividades do setor. Ainda assim, atualmente o setor fabricante de máquinas e equipamentos conta com 307.526 pessoas ocupadas − um aumento de quase 7 mil postos de trabalho no setor em relação ao ano de 2018.

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